
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou nesta segunda-feira, 31 de março de 2025, ao ser confrontado por jornalistas com uma pergunta sobre a atuação de sua esposa, Rosângela da Silva, conhecida como Janja, durante uma coletiva de imprensa em Hanói, no Vietnã. O episódio, que ocorreu ao final de uma viagem oficial à Ásia, escancara o crescente mal-estar do governo petista com o escrutínio sobre o papel da primeira-dama, cuja influência nos bastidores do Palácio do Planalto tem sido alvo de críticas recorrentes, inclusive de aliados.
A questão que desencadeou a ocorrência de Lula girou em torno da viagem de Janja ao Japão, iniciada uma semana antes da chegada do presidente, e de sua participação em eventos como a cúpula Nutrição para o Crescimento (N4G), em Paris, a convite do governo francês. Um jornalista disse se o Planalto considera importante divulgar antecipadamente a agenda e os custos das viagens da primeira-dama, uma prática comum em democracias transparentes. Visivelmente contrariado, Lula respondeu: “Primeiro que a minha mulher não é clandestina. Ela vai continuar fazendo o que ela gosta, porque a mulher do presidente Lula não nasceu para ser dona de casa.” Ele acrescentou ainda que “não responde à oposição nesses assuntos” e que Janja “tem maioria suficiente” para se defender sozinha.
A resposta ríspida de Lula não apenas revela sua sensibilidade ao tema, mas também joga luz sobre a falta de clareza que envolve as atividades de Janja. Sem uma carga formal no governo, ela mantém um gabinete no terceiro andar do Planalto, despacha com ministros e participa de decisões estratégicas, o que tem irritado até as mesmas figuras do PT e do Supremo Tribunal Federal (STF), conforme reportagens recentes. O jornal O Globo , em fevereiro deste ano, apontou que magistrados do STF veem Janja como um filtro que dificulta o acesso a Lula, limitando a influência de conselheiros mais “realistas” sobre o presidente.
A oposição, por sua vez, não perdeu a oportunidade de capitalizar o incidente. Parlamentares indicados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) retornaram a questionar os gastos públicos com as viagens de Janja, que não têm sua agenda ou custos detalhados divulgados oficialmente. “É inadmissível que o contribuinte pague por atividades de alguém que não tem função definida no governo, enquanto o Planalto se recusa a prestar contas”, declarou um deputado do PL em suas redes sociais. A falta de transparência já motivou pedidos de investigação ao Ministério Público, arquivados pelo procurador-geral Paulo Gonet, mas que seguem alimentando o discurso crítico ao governo petista.
O tom defensivo de Lula também contrastou com sua tentativa de projetar uma imagem de serenidade em meio à queda de popularidade registrada por pesquisas recentes, como a do Datafolha, que apresentou uma “fotografia” de desgaste em 2025. Para analistas, a insistência do presidente em blindar Janja, elevando-a a um status intocável, pode ser mais um tiro no pé de um governo que já enfrenta dificuldades para emplacar sua narrativa de nacional. Enquanto Lula esquiva de responder sobre a esposa, a oposição ganha munição para fortalecer a percepção de que o PT prioriza interesses pessoais em detrimento da gestão pública.
Resta saber se a estratégia de transformar Janja em “bola da vez”, como o próprio Lula já declarou em fevereiro, durante os 45 anos do PT, será suficiente para desviar as críticas ou se apenas aprofundará o desgaste de um governo que parece cada vez mais refém de suas contradições internacionais.