O Tabuleiro Politico

Por: BRUNO LOBO MONTEIRO

O Brasil, essa terra de paradoxos escancarados, vive uma situação que desafia as categorias simplórias da ciência política contemporânea, tão cheia de jargões e tão vazias de substância. Aqui, ditadura e democracia não se alternam como capítulos distintos de um livro mal escrito; elas coexistem, entrelaçadas numa trama grotesca onde o poder, sempre ele, escolhe seus donos e seus alvos com a precisão de um levantamento e a hipocrisia de um fariseu. Não é uma ditadura de tanques nas ruas, nem uma democracia de manuais suíços. É algo pior: uma ditadura seletiva que se reveste de democracia, e uma democracia seletiva que se impõe com as próprias cordas da liberdade.

Olhamos para a história, porque sem ela somos apenas macacos com acesso à internet. Desde os tempos coloniais, o Brasil foi forjado na lógica do mando e da conformidade, um sistema onde a Coroa, os senhores de engenho e, mais tarde, os coronéis decidiram quem vivia e quem morria – literal ou simbolicamente. A República, esse mito mal contado, não rompeu com isso; apenas trocou os personagens. Os donos do sistema, ontem barões do café, hoje burocratas gravados ou militantes de causas bem financiadas, continuam a ditar as regras. A diferença é que agora o jogo vem embrulhado num papel celofane chamado “Estado Democrático de Direito”, que de direito tem pouco e de democrático menos ainda.

A ditadura seletiva opera na sombra. Não precisa de botas ou fuzis; usa canetas, decisões judiciais e narrativas midiáticas. Escolhe seus alvos com base numa lógica clara: quem ameaça a hegemonia cultural, política ou econômica dos “donos” é triturado. Veja os casos de silenciamento, as perseguições fiscais, os processos kafkianos que se arrastam contra dissidentes – sejam eles jornalistas, empresários ou cidadãos comuns que ousam discordar. Enquanto isso, os beneficiários, os “amigos do rei”, navegam em águas calmas, cegos por uma imunidade que não está escrita em lei, mas registrada na prática cotidiana do compadrio e da corrupção institucionalizada.

Por outro lado, a democracia seletiva é o palco onde essa farsa se exibe. As eleições acontecem, sim, mas o que significa quando o espectro de escolhas é previamente filtrado por oligarquias partidárias, financiadores ocultos e uma imprensa que há muito abandonou o jornalismo para virar torcida organizada? O povo vota, mas vota em opções que já foram mastigadas e cúspides pelo sistema. E ai de quem tenta romper esse cerco: ou é comprado, ou é destruído. A liberdade de expressão, esse pilar tão decantado, existe apenas para quem concorda com a cartilha dominante; para os outros, é mordaça disfarçada de “combate ao ódio”.

Filosoficamente, estamos diante de um monstruoso híbrido que Maquiavel aplaudiria e Rousseau deploraria. O poder, aqui, não busca apenas dominar; ele quer ser amado enquanto esmaga. É a lógica do senhor feudal que exige gratidão do servo por deixá-lo vivo. Sociologicamente, é o retrato de uma sociedade que nunca superou sua origem escravocrata: o “sinhô” mudou de roupa, mas a mentalidade do chicote permanece. E politicamente, é a vitória do conservadorismo cínico – não o meu, que preza a ordem e a tradição como alicerces da civilização, mas o dos oportunistas que conservam apenas suas privilégios.

Olavo de Carvalho, que Deus o tenha, diria que isso é o resultado de décadas de anestesia cultural, de uma elite intelectual que trocou a busca da verdade pela bajulação do poder. E eu, com alguns anos nas trincheiras de estudos e nas páginas dos livros, concordo. O Brasil não vive uma ditadura clássica nem uma democracia plena; vive um simulacro de ambos, uma máquina de beneficiar os “donos” e punir os “alvos”, enquanto o povo, atônito, assiste ao espetáculo sem entender que é, ao mesmo tempo, vítima e figurante.

A saída? Não há fórmulas mágicas, mas começa pelo despertar. É preciso enxergar o jogo, desmascarar os atores e recusar o papel de escravo voluntário. Porque, no fim, como já disse o velho Olavo, a realidade não negocia com quem prefere dormir.

O Tabuleiro Político, 01 de Abril de 2025

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